quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Atraso, irresponsabilidade e jeitinho

Atraso, irresponsabilidade do poder público e da iniciativa privada brasileiros, tudo somado com a sensação de corrupção generalizada (“jeitinho”), são a síntese do terrível incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013. Morreram, então, 231 pessoas, a maioria jovens universitários. O número de feridos, na quinta-feira, 31, somava 138. O cenário de erros é bem resumido no  artigo de Eliane Cantanhêde, “Brincando com fogo”, publicado na Folha de S. Paulo (dia 29).

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Tamanha tragédia, claro, trará alguma consequência, pode (deve) até provocar avanços na prevenção de incêndios – o terceiro maior do mundo em boates. Mas a sensação, de novo, é de que nada ou quase nada vai ocorrer, em consequência do desastre, com o passar dos dias. É o resultado da bipolaridade da sociedade (não só no Brasil) entre euforia-otimismo e pessimismo. É, principalmente, na minha opinião, o resultado do recorrente descaso com os problemas que nos cercam no dia a dia.

No artigo “A psicologia da tragédia”, Hélio Schwartsman (Folha de S. Paulo, dia 29 de janeiro), escreve que o roteiro é conhecido e o fenômeno é universal, citando estudos de “Paul Slovic, talvez a maior autoridade do mundo em psicologia do risco, e outra sumidade na área, Cass Sunstein”.

“Após uma tragédia como a de Santa Maria, a vontade de agir é irrefreável. Nas próximas semanas, Estados e municípios atualizarão suas normas de segurança anti-incêndio e apertarão a fiscalização sobre todo tipo de estabelecimento. Trata-se, é claro, de um efeito transitório. Com o tempo, o ímpeto vigilante arrefece e as coisas voltam mais ou menos ao que eram antes”.

NOSSOS CÉREBROS

O colunista considera que o problema, no fundo, é a arquitetura de nossos cérebros. “Quando lidamos com riscos que não fazem parte de nosso dia a dia, ou agimos como se eles não existissem ou como se fossem uma sentença de morte. O mais realista meio-termo desaparece”.
Informações inverossímeis de autoridades, de donos da boate e de integrantes da banda que teria provocado o incêndio forram o noticiário, enquanto a tristeza aniquila famílias e amigos dos mortos e feridos.

O que se lê, por exemplo, dia 31 de janeiro, é que o Rio de Janeiro Rio tem 49 espaços culturais sem alvará.”Entre os que estão em situação irregular, 36 são geridos pela prefeitura”, segundo O Globo. “São Paulo tem 300 casas noturnas em funcionamento sem alvará definitivo” (O Estado de S. Paulo).”Fiscalização em BH não tem data para começar.Cinco dias depois do incêndio no Sul, prefeitura nem sequer conhece a situação das casas noturnas” (Estado de Minas).

CAMINHOS TORTUOSOS E DESABAFO

Em São Paulo, há 30 mil pedidos de alvará parados na prefeitura, 600 dos quais de boates – problema herdado por Fernando Haddad, que assumiu dia 1º de janeiro.”Tirar alvará é sorte grande. Precisa de caminhos tortuosos para obter um, e as pessoas não podem ficar com o negócio fechado”, disse, naFolha de S. Paulo, Percival Maricato, da Abras (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

Chamou-me a atenção – e de muitos certamente – o desabafo do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, poeta gaúcho, “A maior tragédia de nossas vidas” (O Estado de S. Paulo, 28). Dois versos:  “(…) /Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu. /As palavras perderam o sentido”.

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SUPERAÇÃO

É marca do homem, também, o poder de superação de dificuldades em várias situações. O jornalista e escritor Ruy Castro revela seu exemplo excepcional no artigo “Há 25 anos”, publicado na Folha de S. Paulo.

Leia:

“Foi num dia 25 de janeiro, como hoje. Enquanto Alice tirava o carro, abri a geladeira e, tremendo muito, servi-me de quatro copos de vodca -pura, gelada, do freezer. Copos, não doses. Cheios, cada qual tomado de um gole, e que, como sempre, desceram como água. O tremor nas mãos não traía nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e estava sem beber havia horas. Ainda não descobrira como beber dormindo.
Acordado, bebia um mínimo de dois litros de vodca por dia, só em casa -o consumo na rua era difícil de calcular. Uma vez por semana, a empregada botava os cadáveres para fora, à espera do garrafeiro. Os vizinhos deviam achar que os moradores daquela casa bebiam muito. Se soubessem que um único morador engolia aquilo tudo, não acreditariam.

Dali a pouco, estávamos na rodovia Raposo Tavares, rumo a Cotia, a 31 km de São Paulo, onde eu então morava. Sabia que, no lugar para onde Alice me levava -uma clínica para dependentes químicos-, não haveria bebida. Os quatro copos teriam de bastar até o fim do dia. Mas, e o dia seguinte? E os 30 dias seguintes? Não tinha ideia, nem me preocupava.

Afinal, não vivia dizendo que “bebia porque gostava” e “seria capaz de parar quando quisesse”?
Os primeiros cinco dias foram de horror -o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Nas palestras, as vozes dos terapeutas soavam muito longe e o que eles diziam, um mistério. Os colegas de internação, fantasmas sem rosto. Mas, aos poucos, o horror passou e, em menos de duas semanas, foi sendo substituído por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver -como nunca antes. Até hoje.

Enfim, foi hoje, há 25 anos. Mas hoje é apenas mais um dia”.

OTIMISMO

Há, claro, razões para otimismo – e com ele podemos avançar e ter dias melhores. “Neste ano, um contingente de 15 mil brasileiros, que saiu para estudar por meio do “Ciência sem Fronteiras” começa retornar ao país, trazendo na bagagem inteligência e, em decorrência dela, riqueza. No caminho inverso, mais 24 mil bolsistas partirão em 2013 para estudar no exterior pelo programa, em centros como o renomado MIT, em um admirável ciclo virtuoso”, segundo a revista Veja (data de capa, 23 de janeiro). O “Ciência sem Fronteiras” é o programa “menina-dos-olhos” da presidente Dilma Rousseff, acrescento.

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José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.


Twitter: @JoseApMiguel

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

“Pibão”, “pibinho” e vulnerabilidades


A presidente da Republica Dilma Rousseff afirma que fará “o possível e o impossível” para que o Brasil atinja, em 2013, um crescimento de pelo menos 4% na economia, escreve Vera Rosa, em O Estado de S. Paulo (27/12/2012). A reeleição dela depende da economia, avalia a cúpula do PT, que completa agora 10 anos com as rédeas do poder. Há cerca de um ano, precisamente dia 21 de dezembro de 2011, a meta de crescimento, defendida pela presidente, era de 5% para 2012, segundo o mesmo jornal. O ano está acabando com um crescimento de 1% (ou menos) do Produto Interno Bruto, o PIB, o “pibinho” – ou tudo o que o país produz.

Em 2011, o PIB foi de 2,7%, também abaixo do esperado.
Foi, então, o país que menos cresceu na América do Sul, ficando atrás do desempenho de, por exemplo, Argentina (8,8%), Chile (6,0%) e Venezuela (4,2%), segundo estimativas de governos e analistas.
O britânico Financial Times satiriza as previsões sempre otimistas do ministro da Fazenda Guido Mantega. Segundo a Folha de S. Paulo (dia 27/12), em conto de Natal do blog Beyondbrics, colocam como personagens em bate-boca com Papai Noel a presidente Dilma Rousseff, caracterizada como a rena do nariz vermelho, e o ministro Guido Mantega (Fazenda), como “Guido, o elfo vidente”.
PIBÃO? – A Folha, no editorial “Pibão Grandão” (dia 22/12), opina que a presidente Dilma quer que o PIB cresça pelo menos 4% em 2013, mas sua política econômica dificilmente trará expansão acima de 3%. “É dado como provável que o PIB cresça cerca de 3% em 2013, mas o investimento seguirá abaixo de 20% do PIB, quando o necessário seria 25%. O “pibão” de Dilma não virá tão cedo”.
Para o jornal, os juros mais baixos acabarão por incentivar o investimento e a tomada de risco empresarial, um dia, mas persistem as restrições. “Uma delas é a dificuldade do governo em admitir sem meias palavras que depende do setor privado para alavancar investimentos. Outra é a inflação, que persiste acima de 5,5% e pode subir em 2013 se, como é provável, o PIB se acelerar”.
Rolf Kuntz, colunista de O Estado de S. Paulo, escreve (20/12) que é bom olhar além de 2013. Comenta, por exemplo, que o superávit comercial brasileiro deverá diminuir de US$ 19 bilhões neste ano para US$ 17 bilhões em 2013, porque o valor importado ainda crescerá mais velozmente que a receita das vendas ao exterior.
“A indústria nacional crescerá, mas em ritmo ainda moderado e com muita dificuldade para enfrentar a concorrência estrangeira. (…) De toda forma, será indispensável uma taxa maior de investimento para garantir um crescimento mais veloz, provavelmente no intervalo de 3% a 4%. Se governo e setor privado investirem o equivalente a uns 20% do Produto Interno Bruto (PIB), 2013 estará quase certamente salvo. Mas será preciso mais que isso para impulsionar uma expansão na faixa de 4% a 5% por vários anos. Além disso, será necessário cuidar da eficiência e da qualidade do investimento, dois itens amplamente negligenciados no setor público”.
O editorial de O Globo (1/12) traz o título “Confirma-se o esgotamento dos incentivos ao consumo”. E revela alguns números da economia no final de 2012. Exemplos:
- 1% é a previsão de crescimento do PIB para este ano. Já foi o triplo desse valor;
- 18,7% de investimento. A taxa estava em 20% e caiu, preocupando governo e analistas;
2,5% na agricultura foi o melhor resultado entre os setores econômicos no país;
20º lugar do Brasil num ranking de crescimento de 39 países. Perde para os Brics.
O IMPOSTO QUE NÓS PAGAMOS – Há uma boa notícia para o consumidor, ainda que sua edição tenha alcance limitado.  As notas fiscais terão de exibir o valor dos impostos, anuncia O Globo (11/12/2012). Medida entra em vigor em seis meses. A presidente Dilma sancionou lei, mas vetou uso (do valor embutido) referente ao Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL).
“Numa TV de 42 polegadas, por exemplo, o imposto de R$ 890,49 é maior do que o valor para produzir a mercadoria e representa mais de metade do seu custo final, de R$ 1.499”.
Chama constantemente a atenção os números do Impostômetro, painel criado pela Associação Comercial de São Paulo, Federação das Associações Comerciais do Estado de S. Paulo e Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.
À parte de que os impostos são ferramentas legais para o desenvolvimento dos municípios, dos estados e do país, e à parte a qualidade de aplicação dos recursos públicos, no momento em que escrevo, dia 27 de dezembro de 2012, por volta de 11h20, o brasileiro já pagou, de janeiro até aqui, 1 trilhão, 494 bilhões, 95 milhões, 847 mil , 944 reais em impostos. É um total suficiente para construir mais de 5.187.854 postos de saúde equipados; ou construir mais de 1.299.223 km asfaltados de estradas; ou comprar mais de 55.337.147 carros populares e/ou construir 42.688.700 casas populares de 40 m2. Quem quer detalhes – municípios, estados, por dia, por mês etc. – pode acessar o link do Impostômetro (http://www.impostometro.com.br/), painel que, fisicamente, está exposto no centro de São Paulo.
OS VULNERÁVEIS – Outro tema de interesse para quem acompanha a economia é a propagandeada classe média. No artigo “Chávez, Brasil e os vulneráveis”, publicado na Folha de S. Paulo (18/12) Gustavo Patu escreve que deixar de ser pobre não significa ingressar na classe média. “Uma coisa é dispor do mínimo para comer e morar; outra é poder consumir além do básico e planejar o futuro. (…) Nas estatísticas do governo brasileiro, a classe média já é mais da metade da população do país; os vulneráveis, menos de um quinto. Nessa conta, são chamadas de classe média famílias com renda entre R$ 291 e R$ 1.019 mensais por pessoa. Com régua menos generosa, o Banco Mundial chegou a conclusões bem diferentes: algo como 32% dos brasileiros estão na classe média; os vulneráveis, 38%, são o maior estrato no Brasil e na América Latina”.
O colunista conclui: “Dito de outra maneira, a fatia mais importante do eleitorado da região superou apenas precariamente a pobreza e depende dos governantes para não cair da corda bamba”.
2013 – Resta, por fim, torcer, trabalhar e manter o entusiasmo para que tenhamos todos, brasileiros ou não, um 2013 em que as boas notícias superem as dificuldades presentes em todas as sociedades. Portanto, Feliz Ano Novo.
José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.

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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Consciência e racismo


O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro no Brasil, com feriado municipal em diferentes cidades, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, e tudo que o tema envolve, merecem reflexão. Sou fiel defensor de ações afirmativas para o desenvolvimento do cidadão mais carente, seja ele branco, preto, pardo, mulato, amarelo, índio, mameluco - enfim, pobre. Simples assim: pobre e portadores de deficiências devem ter cotas sociais, tratamento específico. Cota racial é discriminação. É racismo, em minha opinião, embora respeite todos os contrários.

Vamos ao assunto, agora que volto a escrever este blog, no Dia da Proclamação da República, 15 de novembro, depois de dois meses e meio de ausente, cuidando de outras atividades. O texto tem informações e opiniões para todos os gostos.

O Correio do Estado, de Campo Grande, com informações do portal IG, divulga na véspera (14 de novembro) que trabalhador negro tem 61% do rendimento do não negro. “Os trabalhadores negros são maioria em setores como construção civil e serviços domésticos, que pagam menos, exigem menor qualificação profissional e têm relações trabalhistas mais precárias. Já em setores como serviços, indústria e comércio, os não negros predominam. O resultado é que o rendimento médio por hora dos trabalhadores negros (R$ 6,28) representa apenas 61% do rendimento dos não negros (R$ 10,30)”.
(Não nos esqueçamos que os trabalhadores brancos também estão na construção civil e nos serviços domésticos, nas mesmas condições - recebem menos, têm menor qualificação profissional e têm relações trabalhistas mais precárias)

“DISCRIMINAÇÃO”

Há uma carga de discriminação racial, a pretexto de criar ações afirmativas. Por exemplo: o Campo Grande News (14 de outubro de 2012), com informações da Folha de S. Paulo, informa que o Governo Federal vai criar cota de 30% para negros no serviço público. "Cota seria aplicada aos cargos comissionados e concursados; hoje o Executivo tem cerca de 574 mil funcionários civis".

Ao mesmo tempo, o Ministério da Cultura, comandado por Marta Suplicy, propõe editais exclusivos para produtores negros. A medida, segundo a Folha (dia 6 de outubro), divide o meio cultural. "É um absurdo. Se eu fosse negro, ficaria muito puto. É uma coisa de demência, ligada à culpa cristã de classe média branca. É só um passo a mais pelo ódio racial que está sendo potencializado desde que o PT entrou no poder", disse o cantor Lobão.

Para o autor de "Cidade de Deus", Paulo Lins, a medida anunciada pela ministra Marta Suplicy é boa e necessária. "O negro tem que ter privilégio e inclusão em tudo. Ele foi sacrificado durante 400 anos de escravidão no país".

“CULTURA BRANCO-CÊNTRICA”

Já o cineasta Zelito Viana, que produziu "Terra em Transe" (1967) e "Cabra Marcado Para Morrer" (1985), considera a medida "racista". "Agora haverá editais também para anão e para mulher?"

Segundo o professor de ciência política da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) João Feres Júnior, a medida é importante porque a cultura brasileira é "extremamente branco-cêntrica".

O sociólogo Demétrio Magnoli considera a medida discriminatória porque viola a igualdade constitucional entre os cidadãos, mas hoje "infelizmente" é legal graças à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a favor das cotas raciais no vestibular da Universidade de Brasília (UnB).

A apresentadora Glória Maria, da Rede Globo, opina: "Quando li a notícia, fiquei em choque: estou no Brasil ou na África do Sul de 30 anos atrás? Isso é discriminação". Clemente, da banda punk Inocentes, acha a iniciativa um absurdo. "O governo deveria se preocupar em incluir classes pobres, gente que nem sabe que existem editais".

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza de Bairros, responsabilizou as gerências de estatais pela baixa aprovação de patrocínio cultural a projetos de arte negra. “De forma fraterna e sem querer criar polêmica, há uma espécie de racismo institucional”, afirmou a ministra.

“AUTOCENSURA”

Para o colunista Vinícius Mota, da mesma Folha, no artigo "A era das leis raciais" (dia 15 de outubro), trata-se de uma onda avassaladora, a induzir silêncio e autocensura nos que se opõem a sua implantação. "A sociedade dividida à força entre brancos e negros consumaria o retrocesso histórico da recidiva das leis raciais no Brasil. Chame-as de "racistas" ou "racialistas", na língua da moda, elas exumam e validam termos de velhos adversários da modernidade quando instituem privilégios baseados em atributos corporais. O sangue, a cor, a linhagem. Desta vez é para fazer o bem e reparar o mal, argumenta-se. Tenho dúvidas - e saudades do tempo em que ser moderno era não discriminar nem aceitar discriminação".

Na opinião de Elio Gaspari, em O Globo, dia 20 de outubro, as políticas de ação afirmativa são um sucesso para ninguém botar defeito. "A notícia pareceu uma simples estatística: entre 1997 e 2011, quintuplicou a percentagem de negros e pardos que cursam ou concluíram o curso superior, indo de 4% para 19,8%. Em números brutos, foram 12,8 milhões de jovens de 18 a 24 anos. Isso aconteceu pela conjunção de duas iniciativas: restabelecimento do valor da moeda, ocorrido durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e as políticas de ação afirmativa desencadeadas por Lula".

Gaspari compara o Brasil e os Estados Unidos: Pindorama ainda tem muito chão pela frente, pois seus negros e pardos formam 50,6% da sua população e nos Estados Unidos são 13%".

“SILÊNCIO ASSOMBROSO”

No artigo “Raça e educação nos Estados Unidos”, dia 24 de outubro, na Folha, Julia Sweig, diretora do Programa América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, faz referência a artigo do New York Times, que tratou dos efeitos profundamente corrosivos sobre o coração, a alma e a identidade de crianças afroamericanas que estudam em escolas particulares de elite de Manhattan, onde, apesar de estarem mais representadas, há pouco diálogo comunitário sobre raça, classe e privilégios. Um antigo aluno disse ao jornal que "o nível do silêncio é assombroso". "As pessoas são educadas demais para falar disso", comentou.

“A Suprema Corte dos EUA não é tão educada assim e vai em breve julgar uma ação que contesta a ação afirmativa em universidades, uma prática que abriu portas para conquistas de milhões de americanos”, na opinião de Julia Sweig.

MORGAN FREEMAN

Em poucos segundos, há uma bela reflexão sobre racismo. É do grande ator Morgan Freeman, em entrevista a Mike Wallace, no programa 60 minutos da CBS News, nos Estados Unidos. Veja a entrevista, colocada no Youtube, clicando no link abaixo.


O chamado “Movimento Negro do Brasil” reivindica que o feriado de 20 de novembro seja nacional.

José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.


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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Crianças, educação e saúde na contramão dos ufanistas


O Brasil somente será uma Nação importante, uma potência para sua população, no momento em que suas lideranças públicas e privadas se dedicaram à produção de educação de qualidade, para todos, aliada a investimentos bem definidos e proveitosos em ciência e tecnologia.
Por enquanto, na contramão dos ufanistas, temos realidades assim: segundoO Globo, de 28 de agosto de 2012, crianças chefiam 132 mil famílias. “Uma das novidades reveladas a partir do Censo do IBGE é que ainda existem no país 132 mil domicílios sustentados por crianças de 10 a 14 anos”.
O Correio Braziliense, da véspera (27), revela o cenário de ensino falido, prefeito rico. Nas 30 cidades com maior queda na nota do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), o patrimônio dos chefes de Executivos se multiplicou. Houve caso em que o crescimento foi de 1.200%. Detalhes: “Ena Vilma (PP) declarou à Justiça Eleitoral possuir R$ 8 mil em 2008. Hoje tem R$ 281 mil.  Mulher do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte, ela comanda o município de Glória (BA), reprovado pelo MEC na avaliação da qualidade do ensino básico oferecido aos alunos. O mesmo aconteceu com Ilso Parochi (PSDB), prefeito da pequena Neves Paulista (SP). O patrimônio dele pulou de R$ 4,5 mil para R$ 70,1 mil em quatro anos. “Eu era padre e não tinha nada. Agora, guardo dinheiro”, tenta se justificar. Para piorar, em 20 das 30 cidades onde houve maior queda na nota do Ideb, os prefeitos ou vices buscam reeleição. A valorização do professor é outro tema deixado de lado no país”.
O jornal Estado de Minas (30 de julho) escreve que a maior seca do semiárido nos últimos 30 anos deixa 22 milhões de brasileiros (12% da população) em 10 estados expostos a uma das piores pragas da política. “Para conscientizar e estimular moradores dessas regiões a denunciar candidatos que praticam esse crime eleitoral, foi lançada a campanha “Não troque seu voto por água. Água é direito seu”. Em alerta, o Ministério Público admite que as poucas denúncias não refletem o tamanho do problema”.
Por outro lado, o Valor Econômico (31 de julho) revela que o medicamento genérico – mais barato – não chega ao Norte e Nordeste. “A venda de medicamentos genéricos cresceu muito no país, mas não de maneira uniforme. Enquanto em São Paulo a fatia dos genéricos chega a 55,1%, no Norte e Nordeste ela ainda é modesta. No Acre e Amapá, a fatia é próxima de zero, segundo estudo da consultoria IMS Health, a pedido do Pró Genéricos. Se os dados indicam grandes oportunidades de crescimento para os fabricantes, também mostram que os consumidores do Norte, Nordeste e Centro-Oeste não estão se beneficiando de produtos cujos preços são 50% menores do que os dos remédios de referência.
DESIGUALDADE E DESPERDÍCIO
Não é à toa que o Brasil, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), é o 4º país mais desigual da América Latina, conforme noticia O Estado de S. Paulo (22 de agosto). “Estudo da ONU mostra que o Brasil é o quarto país mais desigual da América Latina, atrás apenas de Guatemala, Honduras e Colômbia. De acordo com o relatório, um quarto dos latino-americanos é pobre, ou seja, vive com menos de US$ 2 por dia. No Brasil, 28% da população vivem em favelas. A média da América Latina é de 25%”.
Adalberto Luís Val escreve, no Valor Econômico (27 de agosto), que a perda de alimentos amplia o “Custo Brasil” – e logo na abertura do texto traz questões que merecem reflexão de nossa sociedade. “O Brasil está há pelo menos meia década em franca expansão econômica. Mas uma questão que ainda emperra o desenvolvimento e o crescimento é o chamado custo Brasil. Entre as questões colocadas por um investidor antes de aplicar o seu capital no país estão: os impostos são reduzidos? A mão de obra é barata? Os juros são baixos? Existe uma boa infraestrutura de transportes? A energia é abundante? Há informação científica robusta disponível? Há suporte técnico-científico para as atividades planejadas?
Segundo o autor, há um aspecto que também afeta a conta final do custo Brasil mas que é pouco abordado. “É a questão da fome e do desperdício de alimentos. O Brasil está entre os dez países que mais desperdiçam comida no mundo. (…) Cerca de 35% de toda a produção agrícola vai para o lixo. (…) Entre os consumidores, os números também são alarmantes. Uma família brasileira desperdiça, em média, 20% dos alimentos que compra no período de uma semana. Em valores, isso representa US$ 1 bilhão, dinheiro suficiente para alimentar 500 mil famílias. Na mesa do consumidor, a situação não é melhor. A Embrapa Agroindústria de Alimentos realizou uma pesquisa em que demonstra que o brasileiro joga fora mais alimentos do que efetivamente leva à mesa. Nas 10 principais capitais do país, o consumo anual de vegetais é de 35 quilos por habitante. No entanto, o desperdício chega a 37 quilos por habitante ao ano, parte do qual relacionado à qualidade inicial do produto e parte relacionada a armazenamento inadequado”.
Mais de 10 milhões de toneladas de alimentos poderiam estar na mesa de milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, escreve Val, noValor. “Do total de desperdício no país, 10% ocorrem durante a colheita, 50% no manuseio e no transporte dos alimentos, 30% nas centrais de abastecimento e os últimos 10% ficam diluídos entre supermercados e consumidores. Por exemplo, segundo o IBGE, a estimativa é de que 67% das cargas brasileiras sejam deslocadas pelo modal rodoviário, o menos vantajoso para longas distâncias”.
“A EDUCAÇÃO PRECISA DE RESPOSTAS”
A solução, construída permanentemente para o conjunto de problemas que trago aqui, passa obrigatoriamente pela educação. Por isso, certamente, o jornal Zero Hora (RS), dia 28 de agosto, trouxe a manchete “A educação precisa de respostas”.
O texto: Em nova campanha institucional, o Grupo RBS (que edita Zero Hora) reafirma compromisso de colocar suas empresas e seus veículos de comunicação a serviço da qualificação da educação, por meio de seis ações que compartilha com a sociedade. 1 – Divulgar temas relacionados ao ensino com foco prioritário no interesse dos estudantes. 2 – Valorizar a escola como centro de saber e espaço para o desenvolvimento individual e coletivo dos alunos. 3 – Dar visibilidade aos indicadores de qualidade da educação, especialmente às avaliações das escolas. 4 – Defender a valorização dos profissionais do ensino. 5 – Mobilizar a sociedade para participar ativamente no processo educacional, estimulando os pais a se tornarem agentes fiscalizadores da qualidade da aprendizagem. 6 – Destacar e premiar iniciativas inovadoras e positivas de ensino, para que sirvam como referência de qualificação”.
A AGONIA DAS SANTAS CASAS
O alerta vem desde julho, e o problema desde 1988, mas parece desconhecido das autoridades e da sociedade. “A agonia das Santas Casas” é o título de editorial de O Estado de S. Paulo (29 de julho). “A deterioração da situação financeira dessas entidades – que recebem remuneração insuficiente do Estado, embora sejam a principal força auxiliar do Sistema Único de Saúde (SUS) – ocorre continuamente desde a criação do SUS em 1988.
“Se nada for feito a respeito, o valor do débito das Santas Casas atingirá R$ 15 bilhões em 2013 – em 2005, esse montante era de R$ 1,8 bilhão, conforme mostra o jornal Correio Braziliense (22 e 23 de julho). Estamos caminhando para o maior colapso do sistema de saúde da história, disse o deputado federal Luiz Henrique Mandetta, presidente da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara”.
O editorial do Estadão lembra que a saúde é a principal preocupação dos brasileiros na eleição municipal pelo menos em seis capitais e reforça: “Como as Santas Casas e os hospitais filantrópicos são responsáveis por 45% das internações do SUS e por 34% dos leitos hospitalares do Brasil, talvez não seja conveniente, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista social, nem do ponto de vista político, ignorar a importância dessa crise”.
OPINIÃO
“Não há motivo para comemoração e fogos de artifício quando um dos principais partidos do país – e mais, o partido que mobilizou a nação com o discurso da ética – chega ao banco dos réus e às portas da prisão. Disse Peluso: “Nenhum juiz verdadeiramente digno de sua vocação condena ninguém por ódio. Nada me constrange mais do que condenar um réu em matéria penal”. Estamos todos constrangidos. E tristes”.
Eliane Cantanhêde, no artigo “Constrangimento nacional”, na Folha de S. Paulo (30 de agosto), referindo-se ao PT e à declaração do ministro Cezar Peluso – que se aposenta compulsoriamente por  completar 70 anos de idade – durante julgamento do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal.
UFANISMO – O ufanismo (jactância ou auto-vangloriação de um país) é uma expressão utilizada no Brasil em alusão a uma obra escrita pelo conde Afonso Celso, cujo título é Porque me Ufano do Meu País, ensina o Wikipédia.
José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.
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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Censura - O violão quebrado que não se cala

Depois de um período de descanso, volto ao meu blog. 


O Jornal da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), edição 379, de junho de 2012, traz uma reportagem especial que merece a capa”A MPB enfrenta a censura militar”. Foi escrita por Arcírio B. Gouvêa Neto. “Mais de 40 criadores da Música Popular Brasileira”, desde Adoniran Barbosa a até Wilson Batista, morto décadas antes, foram proibidos pela implacável censura da ditadura militar” (1964-1985). O texto é dividido em “A tropicália passa a incomodar”, “Vandré: o inimigo número um dos militares”, “Geraldo Azevedo e as torturas humilhantes”, “Sérgio Ricardo, o maldito para o regime” (“especialmente depois de ter jogado seu violão na platéia, em 1967, após sua música Beto Bom de Bola levar estrondosa vaia no II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record”), “Chico Buarque, o mais perseguido e proibido”, Zé Kéti e a resistência do Teatro Opinião” e “O DCDP, a máquina de cortar letras”.
Há também o artigo “A censura era prepotente, burra e bizarra”, do produtor radiofônico Cirilo Reis. O jornal, que circula especialmente entre os associados da ABI, não é reproduzido na Internet.
Chama a atenção, para reflexão cultural, a transcrição de um depoimento de Sérgio Ricardo, que completou 80 anos em 18 de junho.
Um aperitivo de sua fala: “A cultura, principalmente, que é a alma do povo, ficou prejuducada da forma mais escrachada possível. Tudo que se faz no Brasil está sem a alma que deveria estar presente e é falso. Estamos vivendo uma farsa de um país desenvolvido, que, na verdade, não tem desenvolvimento algum. É algo etéreo, mentiroso, com muitas coisas fantasiadas pela imprensa, pelo sistema de comunicação e pela chamada intelligentsia, que não tem mais quase nada e vive a decadência”.
Entrevista original de Sérgio Ricardo no portal Rede Brasil Atual:
FRASE
“Se não fosse a imprensa, o Brasil continuaria colônia e ainda manteria a senzala”. Maurício Azêdo, presidente da ABI, na mensagem de Primeiro de Junho, Dia da Imprensa. (Fonte: Jornal da ABI)
José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.
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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sobre a notícia e a verdade


Em tempo de resistência ao trabalho da imprensa – cuja contribuição à democracia brasileira e no mundo é inestimável e incontestável – é preciso reforçar a importância da formação profissional de quem nela trabalha e entender suas posições. Apressados fazem avaliação negativa, mas é correto afirmar que um fato pode ser contado de “n”, todas no universo do que entendemos como verdade.
Exemplo: dia 13 de maio, a Folha de S. Paulo, publica em sua capa a chamada “Órgãos correm para cumprir prazo de acesso a dados públicos” – um enfoque compreensivo sobre o tema. “A três dias de entrar em vigor a lei que regula o acesso a informações públicas, sigilosas ou não, só 12 de 52 órgãos federais consultados pela Folha declararam que seus serviços de informação ao cidadão já estão em funcionamento. A partir de quarta-feira (dia 15) eles terão prazos definidos para responder aos pedidos”.
O mesmo tema mereceu a principal manchete de O Estado de S. Paulo e outro tratamento: “Lei de Acesso à Informação vai começar enfraquecida”. No texto, o jornal destaca que demora na regulamentação por parte do governo atrasa detalhamento e pode gerar confusão. “A Lei de Acesso deixou indefinidas diversas especificidades, como, por exemplo, a necessidade de identificação do requerente da informação”.
Melchiades Filho, da Folha, escreve dia 14 que não convém subestimar a Lei de Acesso à Informação. “Seu significado vai muito além do bem-vindo sinal verde para entrar nos arquivos oficiais e reconstituir episódios conturbados do país. Trata-se também de ferramenta poderosa para melhorar a gestão e desinfetar a administração pública. O brasileiro agora terá o direito de fiscalizar todo e qualquer ato dos governos. As repartições – autarquias e estatais incluídas – deverão fornecer os dados requisitados em no máximo 30 dias corridos. Compras, convênios, atas de reuniões, relatórios, folhas de pagamento: nada disso poderá ser ocultado”.
De volta ao jornalismo comparado e contra os ataques à imprensa – inteiramente desproporcionais aos seus equívocos e erros, presentes em toda atividade humana -, lembro dois tratamentos de um escândalo atual envolvendo as relações de Carlos Augusto Ramos, o empresário e contraventor de jogo de azar Carlinhos Cachoeira, com políticos, especialmente o senador, ex-DEM, Demóstenes Torres, de Goiás. Quando se usa nos textos Caso Cachoeira há, a grosso modo, uma generalização do escândalo. Já, ao usar Caso Demóstenes, também a grosso modo, o conteúdo particulariza e politiza o foco num parlamentar de oposição, que se apresentava como paladino da moralidade, enquanto, nos bastidores, protegia o contraventor (para citar o mínimo de um enorme escândalo político).
Cachoeira, na realidade, “tinha rede multipartidária em Goiás”, escreve o jornalValor Econômico, dia 14. “Filiados em Goiás de todos os grandes partidos políticos do país — PT, PMDB, PSDB e PP — mantiveram ligações, durante seus governos, com as empresas ligadas a Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira quando não diretamente com o contraventor, pivô da CPI criada pelo Congresso. Foi na gestão de Maguito Vilela, do PMDB, que uma empresa de Cachoeira venceu o processo de terceirização da loteria. Íris Rezende, também do PMDB, assinou com a Delta dez contratos para execução de obras da prefeitura. No governo do Estado, a Delta entrou via Alcides Rodrigues (PP), o vice que Marconi Perillo (PSDB) elegeu governador e que depois virou seu  desafeto. Hoje, a Delta é uma das maiores contratantes do PAC, do governo federal, e de governadores e prefeitos. O que explica a estratégia da maioria governista em atuar para evitar que as relações dos políticos goianos com Cachoeira e a Delta respinguem no Planalto”.
ALERTA
O ministro Guido Mantega mantém um discurso de serenidade diante dos esperados respingos da crise econômica mundial no desenvolvimento brasileiro. Cumpre o seu papel. Porém, há meses acompanho a deterioração gradativa da situação econômica mundial, especialmente na Europa, e suas consequências para nós. Sintoma disso é, por exemplo, a desaceleração da indústria. Queda de 3% no primeiro trimestre deste ano em relação a igual período de 2011.
Lá fora, em outro indicador, anuncia-se que o comércio exterior chinês sofre forte desaceleração. A Folha do dia 11 escreve que o comércio da China com o mundo, atingido pela estagnação europeia, teve forte desaceleração e cresceu só 2,7% em abril, abaixo dos 8,9% de março. “As importações subiram 0,3%, e as exportações, 4,9% — inferiores às previsões. O resultado preocupa o Brasil”.
Na “Entrevista de 2a.”, dia 14, o mesmo jornal afirma que Brasil não passará por crise, mas terá pouco crescimento, baseando-se em entrevista feita por Luciana Coelho com o analista financeiro indiano Ruchir Sharma, de 38 anos,que comanda o fundo para mercados emergentes do Morgan Stanley, o nono maior banco de investimento do mundo. Na opinião dele, o ritmo de expansão do país vai “decepcionar” e que é preciso mudar “a mentalidade” para avançar. “O Brasil está ficando para trás entre os emergentes, com o real supervalorizado, gargalos de infraestrutura que inibem a produção, mão de obra cara e excesso de gasto público”.
Previsão de Sharma: “Em torno de 3% de crescimento nos próximos três ou cinco anos. Mas o Brasil deveria estar crescendo ao menos 4% ou 5% ao ano. E, se o preço das commodities cair, pode ficar abaixo de 3%”.
Na mesma linha, a coluna Radar, assinada por Lauro Jardim, na Veja (dia 16, data de capa), lembra que o governo iniciou o ano ambicionando um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto – ou a soma do que se produz no país) de 5%. “Rapidamente falava em 4%. Hoje, teme que não chegue a 3%. A propósito, as projeções do BTG Pactual estão hoje entre 2,6% e 3,4%”.
José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Chuá, chuá... É uma cachoeira só


O dicionário explica que chuá significa enchente. O noticiário político brasileiro, constantemente às voltas de denúncias de corrupção, vive há semanas de uma cachoeira, uma enchente delas. As comportas da represa foram abertas com os “malfeitos” do ex-senador do DEM Demóstenes Torres, de Goiás, o “posudo” da honestidade, e seu relacionamento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, bicheiro e empresário, a quem Torres prestava serviços. Depois, caiu na água também a poderosa Delta Construções. (Contado a cada dia, a dimensão do escândalo vai se diluindo – por isso, escrevo um texto longo.)


A Folha de S. Paulo (dia 18 de abril) escreve que escutas telefônicas feitas pela PF nos últimos três anos mostram que Cachoeira tinha influência nos governos de pelo menos três Estados e relações com políticos de seis partidos, do PT ao PSDB.

“Líderes governistas e da oposição apresentaram ontem no Congresso o pedido de criação da CPI do caso Cachoeira, abortando movimento iniciado dias antes para atrasar as investigações. O objetivo da CPI será investigar os negócios do empresário Carlos Cachoeira e suas relações com políticos e outros empresários. Cachoeira é acusado de explorar jogos ilegais e foi preso pela Polícia Federal em fevereiro”.

O jornal reporta que a presidente Dilma Rousseff está preocupada com os riscos que as investigações do caso Cachoeira criam para a imagem do governo e dos partidos que a apoiam no Congresso, mas muitos petistas querem usar a CPI para atingir a oposição.

“DOA A QUEM DOER”

Ao mesmo tempo, na coluna Painel da mesma edição, a jornalista Vera Magalhães publica que o ex-presidente Lula recebeu no Hospital Sírio Libanês vários parlamentares para discutir a CPI do Cachoeira. Separadamente, despachou com o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), o antecessor Cândido Vaccarezza (PT-SP) e os senadores Gim Argello (PTB-DF) e Renan Calheiros (PMDB-AL).

“A despeito dos receios da presidente Dilma Rousseff, Lula disse que a CPI tem de ser feita "doa a quem doer". Atribuiu a Carlinhos Cachoeira um "esquema" para destruir o seu governo, desde o caso Waldomiro Diniz, em 2004, passando pela denúncia de propina nos Correios -que resultou no mensalão-, um ano depois”.

O senador Demóstenes Torres, que se apresentou durante anos como o paladino da moralidade e dos bons costumes, é o centro do noticiário, que já lança muita sujeira no ventilador.  

Segundo a Folha, negociou verba para beneficiar empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “De acordo com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, há evidências de que Demóstenes atuava como "sócio oculto" da Delta, empresa que, desde 2007, é a que mais recebe recursos do governo federal, principalmente por obras do PAC”.

“LAVAGEM DE DINHEIRO”

A Delta, mostra o jornal O Estado de S. Paulo (dia 18), é suspeita de montar rede de lavagem de dinheiro. “Foco das investigações da futura CPI do Cachoeira, prestes a ser instalada no Congresso, a Delta Construções é suspeita de ter montado uma rede de laranjas para lavar dinheiro numa triangulação com outra construtora, a Alberto e Pantoja Construções e Transporte Ltda., informa a repórter Alana Rizzo. Destino de R$ 26,2 milhões da Delta, a Alberto e Pantoja fez uma série de pagamentos a uma rede de pessoas com vínculos com a empreiteira sediada no Rio que, agora, negam que tenham recebido as quantias”.

O Estadão também conta que o PMDB quer controlar CPI para coagir PT. “O PMDB quer ser tutor da CPI do Cachoeira e assim negociar com o Planalto os rumos da investigação sobre as ligações políticas do contraventor Carlinhos Cachoeira. A ideia é mostrar que a CPI é uma “invenção do PT" e, uma vez instalada, respingará no governo de Dilma Rousseff por culpa do seu próprio partido”.

Mas no governo, segundo a Folha, a ordem é blindar tudo que possa arranhar a imagem do Planalto na CPI. Integrantes do governo trabalham para indicar parlamentares afinados com o governo para a comissão. “O pedido para que a CPI seja instalada foi apoiado por 340 deputados e 67 senadores. Depois que todas as assinaturas do pedido forem conferidas, o documento será lido em sessão do Congresso. A comissão só poderá ser instalada depois que os partidos indicarem seus integrantes. O ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL) e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), investigados pelo Congresso no passado, deverão fazer parte da CPI”.

“A oposição deseja que o foco principal das investigações seja a construtora Delta, que cresceu nos últimos anos com contratos no setor público e recebeu R$ 3,6 bilhões do governo federal desde 2003”. (...) "Isso não pode terminar em pizza", afirmou o líder do DEM, deputado ACM Neto (BA).

Luiz Holanda, professor de Ética Geral e Profissional e de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador-UCSAL, no artigo “O mensalão desce a cachoeira”, recorda, por exemplo, que  durante as investigações ficou provado que os parlamentares que compunham a “base aliada” recebiam, mensalmente, recursos do PT para votarem a favor de projetos de interesse do Poder Executivo.

“Em agosto de 2007, o STF iniciou o julgamento dos quarenta nomes (na época) denunciados pela Procuradoria Geral da República. Como a mais alta corte do país recebeu quase todas as denúncias contra cada um dos acusados, estes passaram a ser réus no processo criminal”.

“A TIA DO PAC”

Colunista de O Globo e da Folha de S. Paulo, Elio Gaspari escreve dia 18 o artigo “O medo da CPI da 'tia do PAC'”, afirmando que se Dilma Rousseff é a 'mãe do PAC', a empreiteira Delta, com R$ 3,6 bilhões de encomendas, é sua tia. Transcrevo quatro parágrafos.

1-Materializou-se um pesadelo do comissariado petista. Foi ao ar o grampo em que o empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira, Delta diz que "se eu botar 30 milhões [de reais] na mão de um político, eu sou convidado para coisa para c..... Pode ter certeza disso, te garanto".

2-A versão impressa dessa conversa surgiu em maio passado, numa reportagem da revista "Veja". Ela descrevia uma briga de empresários, na qual dois deles, sócios da Sygma Engenharia, desentenderam-se com Cavendish e acusavam-no de ter contratado os serviços da JD Consultoria, do ex-ministro José Dirceu, para aproximar-se do poder petista. A conta foi de R$ 20 mil.

3-À época, o senador Demóstenes Torres, hoje documentadamente vinculado a Carlinhos Cachoeira, informou que proporia uma ação conjunta da oposição para ouvir os três empreiteiros. Deu em nada, como em nada deram inúmeras iniciativas semelhantes. Se houve o dedo de Cachoeira na denúncia dos empresários, não se sabe.

4-Diante do áudio, a Delta diz que tudo não passou de uma "bravata" de Cavendish. O doutor, contudo, mostrou que sabe se relacionar com o poder. Tem 22 mil funcionários e negócios com obras e serviços públicos em 23 Estados e na capital.

Dono da Delta, o empresário Fernando Cavendish diz a Mônica Bergamo, da Folha (dia 19), que o escândalo Cachoeira pode levar seu negócio à falência. Afirma que o ex-diretor da empresa, Cláudio Abreu, nunca informou que dava dinheiro para o esquema do contraventor. Foram R$ 39 milhões. Não deu para perceber?, pergunta a jornalista.  “A empresa rodou, nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões. Tem 46 mil fornecedores. Esse dinheiro, nesse universo, é imperceptível”, responde Cavendish. Segundo ele, ninguém é sócio da Delta. "Já inventaram dezenas de sócios para a Delta".

NO QUE VAI DAR?

O resultado de todo som que evapora com a queda da cachoeira pode estar numa informação encontrada no artigo de Holanda, publicado na Tribuna da Bahia (dia 17). “A Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) divulgou o resultado de uma pesquisa destacando que entre 1988 a 2007, ou seja, num período de dezoito anos, nenhum agente político foi condenado por aquela corte por corrupção. Durante esse tempo, o Superior Tribunal Justiça (STJ) - que acaba de liberar o estupro-, condenou apenas cinco autoridades. Desde então, dos 130 processos distribuídos no Supremo apenas seis foram julgados, com a absolvição de todos os envolvidos. Quanto aos demais, 13 prescreveram; o resto continua tramitando na corte, sem nenhum resultado”.

O Globo (18) noticia que réu no caso do mensalão, deputado se reúne com ministro do Supremo. “O deputado João Paulo Cunha (PT-SP) bateu pessoalmente à porta do STF. Pediu audiência a cinco ministros. Por enquanto, foi recebido por Dias Toffoli em seu gabinete na semana passada. O ministro confirmou o encontro, mas alegou que o parlamentar o procurou na condição de integrante da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. Teria ido apenas para entregar o relatório final da comissão de juristas que estuda mudanças no Código Penal. Porém, João Paulo não relata a comissão, nem recebeu missão para representá-la no STF. Perguntado se trataram do mensalão, Toffoli garantiu que não. Disse que o interlocutor sequer puxou o assunto. Questionado sobre o motivo do encontro, João Paulo reagiu como se o conteúdo da conversa não devesse ser divulgado”.

“PADRÃO GLOBAL”

Registro, para terminar, que a Folha (dia 18) tem a seguinte chamada de capa: “Dilma criou “padrão global” anticorrupção, diz Hillary”. Texto resumido: “A atuação da presidente Dilma Rousseff no combate à corrupção foi elogiada pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Ao encerrar sua visita de dois dias ao Brasil, Hillary fez um afago na presidente e afirmou que ela está "estabelecendo um padrão mundial".
"O compromisso dela [Dilma] com a abertura e com a transparência e a luta dela contra corrupção estão estabelecendo um padrão global", afirmou a secretária. A americana esteve em Brasília para lançar um protocolo de intenções em defesa de maior transparência de agentes públicos -55 países já aderiram ao compromisso. Brasil e Estados Unidos são copresidentes da iniciativa."Não há melhor parceiro para começar esse esforço e liderar [essa iniciativa] do que o Brasil, e em particular a presidente Rousseff", disse ela”.

O OBSERVADOR

Gosto de colunas de leitores – revelam muitas opiniões interessantes. Na Folha (18), Guilherme Accioly Domingues (São Paulo, SP) ironiza que é engraçado ver que o norueguês que promoveu um terrível massacre é denominado pela imprensa como "atirador". Fosse ele de outra nacionalidade, seria tido como "terrorista".

José Aparecido Miguel, sócio da Mais Comunicação, www.maiscom.com, é jornalista, editor e consultor em comunicação.



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